sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Ver é um presente


Após conversar com um colega fiquei a refletir sobre a pouca importância que damos ao presente que é poder enxergar. Vemos sempre tanta coisa bonita que na maioria das vezes nem apreciamos e sequer agradecemos a Deus essa dádica.

André tinha um problema de visão que o impedia de enxergar bem, seja de perto, ou de longe, apesar de usar óculos e lentes ele apenas via vultos, reconhecia as pessoas pelo jeito de caminhar, sabia quem era pela voz ou o lugar que as encontrava, diferenciava os carros apenas por sedans e compactos, não dava pra saber se era um Siena ou um Corsa. Sentia fortes dores de cabeça e tinha muitas dificuldades pra absorver o conteúdo das matérias na faculdade, além de passar muitos constranghimentos com pessoas que não sabiam da sua limitação. O único recurso pra ele era o transplante de córnea. Depois de vários anos na fila de espera, finalmente, em fevereiro ele recebeu a doação. Sabia dos riscos mas decidiu acreditar que Deus faria o melhor, que ele teria sua visão restaurada.

Ele me contou detalhes do procedimento, como se sentiu e como esperava ser o resultado. Quando o médico estava destampando o olho, ele via de longe um vulto, esse vulto foi ficando nítido e ele até se assustou quando conseguiu, sem esforço, ver o pé da cadeira que estava do outro lado do consultório. A forma como ele descreveu o pé da cadeira, a emoção dele, de pela primeira vez realmente enxergar foi muito linda e tive que me conter pra não desabar em lágrimas ali, bem na frente dele.

Ele saiu do consultório sorrindo de orelha a orelha e observando tudo o que seus olhos - agora com nova potência - viam. Foi pro apartamento que comprara e ainda nem estava pronto ver tudo, rodou a cidade, quiz ir ao clube, foi ao supermercado, ao shopping e tantos outros lugares.

Passada a anestesia, doeu muito, mas ele não se arrependeu de nada. Pois agora ele via com clareza.

E eu? Eu enxergo tão bem que no exame periódico, que fiz esta semana, o médico me disse que eu poderia operar ponte rolante, que minha visão é de 100%. E o que eu faço dela? Uso pra ler e reler relatórios, gráficos, planos de ação... E os detalhes de gente? E as cores? E os constrantes? E meu gosto por escrever? Podia descrever mais minunciosamente, ver além de uma simples passada de olho. Dar mais valor ao que vejo e a capacidade que tenho de ver.

Esse colega está se formando em engenharia - um curso que exige muita dedicação, e ele sempre trabalhou e estudou muito, não se acomodando porque tinha uma limitação. E eu, que fisicamente não tenho nenhuma condição que me atrapalhe, muitas vezes, fraquejo por coisinhas tão pequenas...

Preciso valorizar mais o que tenho e não dar tanto crédito para o que acho que me falta.

Preciso ver que posso ver o que quiser. E o que eu imaginar ser é o que eu sou.

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