terça-feira, 21 de outubro de 2008

Cerimônia de Adeus

Quem precisa de livros de auto-ajuda? Randy Pausch, com certeza, não é um deles. É inacreditável a coragem com que este homem enfrenta sua tragédia pessoal. Pausch, de 47 anos, é casado com a mulher de sua vida e tem três filhos que adora, Dylan, de 6 anos, Logan, de 4, e Chloe, de 1 ano e meio. Mas Pausch é paciente terminal de câncer de pâncreas.

Pausch descobriu há dois anos que estava doente. Submeteu-se a cirurgia, quimioterapia, radioterapia, apenas para saber em agosto de 2007 que a ciência médica não podia curá-lo. Em A ÚLTIMA LIÇÃO (Agir, 256 páginas, R$ 34,90), Pausch conta como, ao invés de sentir pena de si mesmo, decidiu desfrutar com intensidade o tempo que lhe resta na companhia de sua família. Ele se desligou do posto de professor de Computação da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, e se mudou para Virgínia, para Jai e as crianças ficarem perto dos parentes depois que ele partir.

Como último ato na universidade, Pausch convidou colegas, amigos e alunos para uma aula, intitulada "Conquistando seus sonhos de infância". Em 18 de setembro, Pausch fez uma recapitulação de seus sonhos de infância e percebeu que conquistou quase todos. Um deles era construir brinquedos tão geniais quanto os que conheceu aos 8 anos na Disneylândia. Outro era conhecer o capitão Kirk de Jornada nas Estrelas. Passados 30 anos, ninguém menos que o ator William Shatner foi visitar o laboratório de Pausch para conhecer os jogos 3-D que ele produzia.

PAI HERÓI
Randy Pausch e o filho Logan. "Quero que eles saibam como os amei", diz
OS INCRÍVEIS
Pausch fantasiado no Dia das Bruxas, com a mulher e os filhos. "Eu parecia invencível com meus músculos de papelão"

"Eu me dei conta de que, apesar do câncer, me considerava de fato um homem de sorte, porque transformei aqueles sonhos em realidade", escreve. "Achei que, se fosse capaz de mostrar minha história com total paixão, minha palestra talvez ajudasse outras pessoas a encontrar um meio de realizar os próprios sonhos". Pausch confessou que sua lição era dedicada aos filhos. "Quero que as crianças conheçam minhas convicções e todas as formas pelas quais as amei", escreve. "Chloe não se lembrará de mim. Ainda é pequena demais. Porém, quero que cresça sabendo que fui o primeiro homem a se apaixonar por ela".

A aula foi um evento emocionante para os 400 privilegiados que lotaram o auditório. No dia seguinte, seus 76 minutos da aula caíram no YouTube. Já foram vistos por 30 milhões de pessoas. Sua lição de vida cruzou fronteiras e idiomas, o que fez Pausch ser escolhido há 20 dias pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes do planeta.

Pausch recebeu US$ 6,7 milhões para escrever A Última Lição, resultado de 53 horas de entrevista com o jornalista Jeff Zaslow. O livro não é a versão ampliada da aula (cujo texto original, a propósito, faz falta). É a história de como Pausch tem procurado levar a vida com alegria desde o diagnóstico – mesmo confessando que, de vez em quando, se permite chorar no chuveiro. A Última Lição é uma coletânea de reflexões sobre os momentos felizes que Pausch partilha com Jai e as crianças, filmando sempre tudo. "Meus filhos continuam sem saber que, em todos os nossos encontros, estou me despedindo".

Antes mesmo de ser oficialmente lançada nos Estados Unidos, a primeira edição esgotou na Amazon. O livro lidera a lista de indicações do The New York Times e deve entrar na lista dos mais vendidos neste fim de semana. Sobre o livro, Pausch só tem uma coisa a dizer: "O que me importa são apenas os três primeiros exemplares".


Eles contaram o último instante

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