Como escolher a escola do seu filho

Um guia para você enxergar além da maquiagem que os colégios fazem para impressionar os pais
Revista Época

Está aberta a temporada de caça às escolas. Os últimos meses do ano são o período em que os pais procuram o colégio em que vão matricular os filhos. As escolas são tão preocupadas com isso quanto os pais. Para elas, este é o momento mais importante do ano. Elas se preparam com afinco para laçar novos alunos. Por isso, quem deseja fazer uma boa avaliação das escolas precisa ficar atento. "O pai não pode ser inocente, ele está indo visitar uma empresa que vai vender seu produto", afirma o consultor educacional João Bueno. Ele sabe do que está falando. Já deu treinamentos a várias escolas, em todo o país, sobre a arte de receber os pais. Usando técnicas de marketing, João ajudava os diretores a instruir seus funcionários sobre como se vestir, se portar e o que responder. Nos meses de visitas, diz, tudo deve estar impecável. Do chão do pátio à unha da recepcionista. "As escolas calculam cada detalhe: o trajeto que o pai vai fazer, quem vai encontrar e o que vai ver. Isso para mostrar o que a escola tem de melhor e camuflar o que tem de pior".

RICARDO CORRÊA
ONDE ELES VÃO ESTUDAR NO ANO QUE VEM?
Da esquerda para a direita, Enzo, Guilherme, Rafael, Maria Clara, Tales e Maria Eduarda (no chão). Nosso roteiro ajudou os pais deles na visita a algumas escolas. E pode ajudar você

Este guia que você tem em mãos é um antídoto contra a maquiagem das escolas. E um manual para guiar uma das decisões mais importantes de qualquer pai: a escolha de quem vai ajudá-lo a formar seu filho. Com o auxílio de especialistas em educação, ÉPOCA preparou um roteiro com os principais fatores a observar nas escolas e como perceber se o colégio é adequado ao estilo da família.

Para testar esse roteiro, convidamos pais que estão em busca de uma nova escola para o filho, do jardim-de-infância ao ensino médio. Um desses pais, a secretária Juliana de Oliveira Silva, já sabia que as escolas costumam "se vender": ela foi auxiliar de ensino de uma escola infantil. "Nos dias de receber os pais, tudo ficava mais arrumado", diz. Além dos fatores apontados pelos especialistas, os pais acrescentaram alguns próprios, como ensino bilíngüe e educação religiosa. Depois, saíram para avaliar as escolas. Esses colégios não sabiam que os pais estavam em contato com a revista, portanto, eles foram atendidos sem privilégios (e, como as escolas não sabiam da reportagem, seus nomes não serão divulgados). O balanço dessas experiências pessoais mostra como os pais podem tomar decisões com mais segurança e destaca as questões específicas de cada etapa de ensino.

fotomontagem com fotos de Daniel Wainstein/ÉPOCA e Ricardo Corrêa/ÉPOCA
EXPERIÊNCIA PRÓPRIA
Juliana, ex-auxiliar de ensino, agora busca uma escola para matricular sua filha, Maria Eduarda.
"Eu vi como as escolas se preparavam para receber os pais"

Para aproveitar bem o guia, no entanto, é preciso primeiro fazer uma lição de casa. Segundo os educadores, os pais devem analisar como criam seus filhos, para só então pensar no que esperam do colégio. O item principal a observar é a disciplina. Como é a relação de autoridade? Qual é o grau de autonomia para a criança tomar decisões? Ela é ouvida em decisões familiares (como onde vão passar o Natal ou a decoração da casa)? A recomendação é que os pais procurem escolas parecidas com o modelo da família. A segunda avaliação doméstica é da personalidade do filho. Se ele é muito tímido, é melhor colocá-lo em uma escola de turmas pequenas, que valorize a expressão individual. Salas grandes onde só o professor fala não vão ajudá-lo a se desinibir.

Quanto mais o pai entender o que está procurando, mais chances tem de encontrar. "Inconscientemente, há quem procure compensar perdas na escola", diz a pedagoga Célia Godoy, coordenadora da pós-graduação em Gestão Pedagógica nas Instituições Educacionais, um curso do sindicato de escolas particulares de São Paulo. "Mães solteiras que preferem escolas militares para suprir a falta da figura masculina. Pais permissivos que procuram uma escola rígida para domar seu filho. Isso dificilmente dá certo".

fotomontagem sobre fotos de Ricardo Labastier/ÉPOCA e Ricardo Corrêa/ÉPOCA
OLHAR ATENTO
Cíntia, mãe de Guilherme, de 4 anos, é coordenadora de uma escola pública em Brasília. "Por ser da área da educação, presto muita atenção nos detalhes", diz
fotomontagem sobre fotos de Daniel Wainstein/ÉPOCA e Ricardo Corrêa/ÉPOCA
PRECOCE
Guilherme é pai de Enzo, de 8 anos, que se interessa por paleontologia. "Procuro uma escola que valorize o tipo de raciocínio dele"

Ao ter em mente o que procuram, os pais devem fazer uma lista das características da escola que consideram prioritárias. O roteiro das próximas páginas tem 24 fatores. Não se angustie. Nenhuma escola reunirá todos, nem há tempo para verificar tanta coisa em uma visita. "O pai pode usar essas indicações como instrumento para enriquecer sua avaliação, mas com cuidado para não criar muita expectativa e ansiedade", afirma Neide de Aquino Noffs, coordenadora da pós-graduação de Psicopedagogia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Não há escola perfeita. Ela é um espaço de interação entre pessoas diferentes, ninguém pode garantir que tudo correrá bem." Neide compara a relação entre pais e escola com a de um paciente e seu médico. O paciente deve confiar no médico, mas se inteirar de todos os diagnósticos e decisões que ele toma. "Não é delegar, é confiar. É preciso perguntar tudo, até ficar satisfeito".

Dois estilos básicos
São muitos os modelos pedagógicos, mas há duas linhas principais que trabalham diferentes habilidades com os alunos

Revista Época
Fonte: consultoria de Célia Godoy
fotomontagem sobre fotos de Daniel Wainstein/ÉPOCA e Ricardo Corrêa/ÉPOCA
RESPEITO E CIDADANIA
Raquel é mãe de Tales, de 12 anos. Quer que a escola respeite religiões diferentes e dê noções de cidadania. "Meu filho já foi discriminado quando disse que era espírita"

A recomendação mais importante para a visita é falar pouco e perguntar muito. Assim, há menos chances de a escola dirigir a apresentação para o que vai agradar. A mesma recomendação se aplica à visita dos alunos. Ela só deve acontecer depois que os pais aprovarem a escola. Crianças e adolescentes costumam falar mal do colégio anterior, e a escola vai usar isso para convencê-lo de que lá é diferente. Os especialistas recomendam que o pai tire todas as dúvidas, fazendo perguntas e pedindo exemplos concretos do que não entenderem. Mas nunca expressar sua opinião sobre as respostas. Se a sala de computação só tem cinco máquinas para 30 alunos, não é preciso dizer "é pouco". Registre a informação e continue a visita. "O pai é o entrevistador, não o entrevistado", diz Neide. "Ele não vai consertar a escola na visita." Algumas escolas encaminham o pai a uma entrevista, no começo da visita, para descobrir o que ele busca. "A partir daí, a pessoa só vai apresentar o que o pai quer ver", diz João Bueno. Se a escola chamar para a entrevista, peça para conhecê-la antes e conversar depois.

fotomontagem sobre fotos de Daniel Wainstein/ÉPOCA e Ricardo Corrêa/ÉPOCA
TURMA DO FUNDÃO
Wagner é pai de Rafael, de 16 anos. Quer uma escola que acompanhe seu filho de perto, mas sem ser muito rígida. "O Rafa cai muito facilmente na turma dos bagunceiros"
Fonte: Época

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