domingo, 12 de outubro de 2008

Festa para descasar

Festa para descasar
Populares nos Estados Unidos, eventos para celebrar o divórcio conquistam brasileiros

Renata Cabral

Após dois anos de convivência, chegou o grande dia do casal. Não havia traje branco, juiz de paz, padre ou dama de honra. A festa era de descasamento, anunciava o convite. A advogada Samantha Andreotti, 32 anos, e seu ex-marido André comemoraram o divórcio no apartamento do casal, com direito a música, bebidas, quitutes e presença de muitos dos amigos que estiveram na festa de casamento. A novidade, que faz sucesso nos Estados Unidos, onde existe até uma empresa especializada em minicaixões para alianças, começa a conquistar os (ex)casais brasileiros. E chega com direito a lembrancinhas, docinhos bem-separados (em vez dos bem-casados), noivos personalizados guerreando no topo dos bolos e o que mais a indústria especializada inventar.

A inspiração de Samantha e André veio do casal Yolanda Penteado e Ceccilio Matarazzo - destaque na alta sociedade paulista dos anos 40 e 50 -, que anunciou sua separação numa grande festa, reproduzida na tevê pela minissérie Um só coração. "E ainda dizem, hoje, que fomos ousados", diverte-se Samantha. As famílias do ex-casal se recusaram a participar da comemoração. "Tomar a decisão foi difícil. Mas, quando nos decidimos, quisemos dividir e festejar com os amigos", conta ela. Para o psicanalista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Sócrates Nolasco, celebrar o divórcio é tentar transformar de forma artificial o fracasso em sucesso e a tristeza em alegria: "Para atender à lógica do mercado, a sociedade torna a felicidade uma obrigação. Em vez de lidar com a dor, se comemora, perdendo a oportunidade de tirar do luto ensinamentos", defende.

Noivos brigando em cima do bolo, bemseparados (em vez de bem-casados) e minicaixões para as alianças dão o clima

A produtora de eventos Gabriela Barroso, 31 anos, admite que usou sua "despedida de casada", como chamou a comemoração, para secar as lágrimas e brindar a solteirice. "Chorei por três meses, mas tristeza não combina comigo. No dia da festa, proibi as meninas de falarem em separação", conta ela, que contratou um stripper para animar as amigas e decorou sua casa em estilo cabaré. Ganhou novo estoque de lingeries sensuais com produtos de uma sex shop carioca, que já organizou três eventos do tipo neste ano.

ALÍVIO Diná Silva levou seis anos para se separar do marido e ganhou uma festa das amigas

Há ainda quem receba a separação como um alívio, digno de festa mesmo. A confeiteira Diná Silva, 37 anos, que há seis pensava em se separar, adorou o presente das colegas de trabalho: um bolo com noivinhos bem-humorados que transformaram o doce em campo de batalha. Divorciada há quase um ano, Diná festeja a nova fase: "Reunimos as amigas para nos divertir e falar do que passou. Muitas ainda não sabiam da separação."

Assim como acontece com os chás de bebê, de panela e de lingerie, os de divórcio também costumam ser capitaneados pelas mulheres. E podem ter a conotação sensual de um ambiente de sex shop ou formal com direito a bolo customizado e lembrancinhas. "A receita do bem-separado é a mesma do bem-casado, mas o embrulho, em vez dos tons pastel, ganha papel roxo e fita preta para representar o luto", explica Inês Brito, empresária paulista da empresa de doces e bolos artísticos The Best Party. Com ou sem festa, a psicóloga especialista em sexualidade e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Jaqueline Lopes reforça que cada um deve encontrar a melhor maneira de lidar com uma perda: "O importante é fazê-lo de forma natural, sem se deixar influenciar por modismos ou negar o que está sentindo naquele momento."
Fonte: IstoÉ

2 comentários:

Cadinho RoCo disse...

Gosto da aproximação e penso ser por ela que devemos seguir. Também entendo que niguém casa para separar e por isso percebo haver na separação conjugal motivo muito mais voltado para reflexão do que queremos buscamos do que para celebração. São de atitudes assim é que criamos artifícios que terminam por camuflar o que de fato devemos estampar em nós mesmos. A propósito, sou divorciado e nunca pensei em celebrar isso que para mim foi acontecimento totalmente adverso ao que sempre quis. E acrescento que quem propôs a separação fui eu,ao perceber que não tinha como proporcionar a felicidade que pretendia e até pretendo à minha ex-eszposa. Hoje sei que na época não estava maduro o suficiente para tal compromisso.
Cadinho RoCo

Viviane Andrade disse...

Muito obrigada pelo comentário.
Alguns acontecimentos em nossa vida não são dignos de comemoração e sim de reflexão - concordo com você.
Quanto aos motivos que levam tantos ao divórcio, gostaria mesmo de acreditar que todos sejam voltados à felicidade de ambos, e não por banalidades, como tantos que vemos, principalmente, no meio artístico.
Abraços.