Férias perigosas


Caminhadas pelo deserto do Saara e viagens ao Iraque e ao Afeganistão têm cada vez mais adeptos

João Loes

DISPOSIÇÃO Ana Beatriz (à esq.) percorreu 180 quilômetros a pé pelo deserto do Saara. Costa Neto foi à Bósnia durante a guerra

Quando o paulistano André Bueno, 43 anos, decidiu passar férias na Mauritânia, percorrendo 180 quilômetros a pé no deserto do Saara, muita gente duvidou de sua sanidade. Casado e pai de dois filhos, chegou a ser chamado de irracional por uma tia. Ela tinha razão para se preocupar. Afinal, um mês antes da viagem, que aconteceu em janeiro passado, quatro turistas franceses haviam sido assassinados no país. Bueno fiava-se na companhia de Antônio Lenzi, o Toco, único especialista brasileiro em expedições que cruzam o Saara a pé. Toco já havia feito dezenas de viagens à África e conhecia o deserto como ninguém. Daí surgiu a idéia de levar um grupo de dez pessoas para a Mauritânia.

Este filão turístico está em ascensão. Pacotes que prometem um dia como afegão, paquistanês e até iraquiano são cada vez mais comuns. "É um desdobramento do turismo de experiência", diz Thais Funcia, coordenadora do curso de turismo da Universidade Anhembi- Morumbi, em São Paulo. "Esse viajante quer chegar a uma aldeia e acompanhar o dia-a-dia de um membro da comunidade ou visitar uma área de conflito e ver como as pessoas sobrevivem naquele ambiente", explica.

No Brasil, poucas empresas oferecem esse tipo de pacote - e preferem chamá-lo de "aventura" ou "experiência". "Os riscos são controlados, mas visitar Cabul é mais perigoso que Paris", afirma Alexandre Panosso Netto, professor de turismo da USP. No Exterior, esta modalidade de viagem é mais popular. Nos Estados Unidos, a Universal Travel Agency (UTA), há 35 anos no ramo, tem pacote com tour e estadia no Afeganistão, onde os turistas são levados do aeroporto para o hotel em vans blindadas. Pela agência, um tour por nove países do Oriente Médio custa pelo menos US$ 20 mil.

Nos EUA, há pacotes para o Afeganistão, onde os turistas são levados do aeroporto para o hotel em vans blindadas

O pacote brasileiro no Saara custa em torno de US$ 3,5 mil. O conforto é zero e a disposição, total. "Me preparei caminhando três horas por dia com a bota que usaria na viagem", conta a professora de pilates Ana Beatriz Rossi, 32 anos. O preparo ajudou, mas não evitou uma infecção alimentar que, além dela, afastou outros três membros do grupo por dois dias. "Estourar as bolhas nos pés dos colegas de viagem era um ritual diário", conta Bueno. Além dos dez brasileiros, 11 dromedários e sete guias árabes compunham a caravana. Ana Beatriz só se sentia insegura ao cruzar postos de polícia onde via homens armados. "Existe risco, e a gente deixa isso bem claro antes da viagem, mas ele é controlado", diz Toco. A próxima caminhada pela Mauritânia está programada para 9 de janeiro.

Há quem procure opções ainda mais radicais. Em 1993, durante a guerra da Bósnia, o fotógrafo Fernando Costa Neto resolveu viajar para Sarajevo. "Poderia surfar no Havaí, mas preferi acompanhar o conflito", conta. Assim que pousou na cidade, a bordo de um avião da ONU, ele foi levado de tanque para se registrar como visitante. "Ouvia tiros a toda hora, dia e noite", lembra. Sem água ou energia elétrica e com inverno beirando os 20 graus negativos, Costa Neto vivia encapotado para não congelar. Levou mais de 50 tabletes de sopa instantânea para os dez dias em que ficou por lá. "Hoje não consigo nem sentir o cheiro dessas sopas", diz ele, que ficou hospedado na casa de croatas. Para ser bem recebido, andava com uma foto em que aparece ao lado de Pelé - um atestado universal de brasilidade. "Sempre fugi dos roteiros seguidos pela maioria", diz ele, que voltou em 2006 a Sarajevo e fez fotos dos mesmos lugares que conheceu 13 anos antes.

Fonte: IstoÉ

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