segunda-feira, 13 de outubro de 2008

LIVROS E REVISTAS

Para estimular a mente
Repórter de imagem Tiago Cappi
Fotos Marcelo Magnani
Texto Marilena Dêgelo
Para muita gente, não basta ler um livro ou uma revista, é preciso tê-los à mão na estante ou sobre a mesa. Só de olhá-los, volta-se a mergulhar em universos de palavras, personagens, imagens e pensamentos. Saiba como cinco pessoas, de diferentes gerações e profissões, cuidam de seus objetos de leitura mais estimados

Paixão que se pode comprar
Há 11 anos, quando estava no primeiro ano da faculdade, a arquiteta Juliana Grave, 33 anos, descobriu o prazer de comprar livros importados de arquitetura e design de um vendedor especializado. 'Na época, ele estava começando com sua empresa Sandro Arte e Leitura e, até hoje, assim que recebe lançamentos, traz aqui em casa uma caixa com uns 50 para eu escolher', diz. 'Meu vício é comprar livros. Já tive a fase de pedir obras sobre lofts e paisagismo. Tenho paixão por arquitetura, mas coleciono também os de arte, design, fotografia, eróticos e até infantis.'

A arquiteta tem 200 títulos em seu apê nos Jardins, em São Paulo. No estar, decorado com a ajuda do designer de interiores Francisco Cálio, ficam os preferidos, distribuídos na mesa de centro, em uma bancada de concreto e numa prateleira laqueada. Para facilitar a consulta, ela monta pilhas por assunto e deixa outros em pé. 'Quando compro, olho cada um e guardo. Assim, sei onde está o que me interessa.' Sem frescura com sua biblioteca, ela grifa as frases de que gosta e cola post-it nas páginas, mas odeia emprestar. 'Sinto ciúmes. Os livros fazem parte do meu dia-a-dia. Tenho receio de que se esqueçam de me devolver.'

A arquiteta Juliana Grave adora seus livros de arquitetura, design, arte e paisagismo, que mistura com objetos de toy art e presentes de amigos. As obras ficam na sala decorada com a ajuda do amigo e designer de interiores Francisco Cálio, em bancada de concreto e prateleira laqueada, com 10 m de comprimento, mesma medida da parede. A marcenaria custou R$ 3.700. Poltrona Charles Eames. O gato Julian é da Magis, encontrado na Micasa. Tapete da Gaia e quadro de Beto Consorte


Pilhas de livros de design ficam sobre a mesa de centro laqueada, da Micasa. Em cima, Juliana coloca carrinhos de sua coleção e vaso com flores, como o da Fulô, para equilibrar os volumes

Ela mora na rua Sagarana (nome do livro de contos do mineiro Guimarães Rosa), na Vila Madalena, em São Paulo, apresenta o programa de entrevistas Letras & Leitura, na rádio Eldorado e, este ano, fez parte do júri do Prêmio Jabuti, que elege os melhores livros de autores brasileiros da atualidade. Nunca a jornalista Mona Dorf, 49 anos, esteve tão envolvida com a literatura. 'Tenho livros no closet, na cozinha, no banheiro e até em carrinho de supermercado, que uso para carregá-los de um lado para o outro', diz. Mas seus preferidos ficam na estante da sala. 'Gosto de misturá-los com esculturas, máscaras e jogo de chá. Fica bonito e colorido.'

Como mora em uma casa alugada, Mona montou a estante de aramado com prateleiras de madeira ebanizada na sala. 'Quando me mudar, posso desmontá-la e levá-la para onde for', afirma. Há mais de 30 anos ela coleciona livros, muitos recebidos de escritores que entrevistou ao longo de sua carreira, e procura mantê-los organizados por categoria: literaturas francesa e brasileira, poesia, fotografia... Desprendida, Mona doa alguns exemplares depois de lidos para projetos como Livro Livre, do jornalista Paulo Markun, a fim de que circulem. 'Se guardasse todos comigo, teria mais de 4 mil livros. Faltaria espaço.'

A jornalista Mona Dorf montou, na sala, a estante de aramado com prateleiras de madeira ebanizada da marca italiana Casamania. Cada módulo custou R$ 1 mil, na Benedixt, mas hoje está fora de catálogo. Em meio aos livros, estão objetos. O carrinho de supermercado é usado para carregar títulos a serem lidos, distribuídos pela casa. Mesa da Magis, encontrada na Benedixt


No alto da estante, a estatueta de porcelana biscuit da década de 1940,
da marca italiana Lenci, reproduz o rosto
da atriz Marlene Dietrich, cujo livro de
fotos, feitas por Alexander
Liberman, está ao lado


'Sinto-me mais seguro quando estou escrevendo e sei que meus livros estão ali, disponíveis para a consulta a qualquer hora.' A afirmação é do jornalista Claudio Cerri, 57 anos, especializado em economia, que fez uma estante para 3 mil títulos na sala de sua casa na Granja Viana, em São Paulo. Ele e sua mulher juntaram esse acervo durante 40 anos. 'É um privilégio. Só guardamos os bons, que refletem a história da humanidade e nos colocam em contato com o melhor das pessoas mais interessantes do mundo', diz ele. 'Eu pego um livro de Celso Furtado, morto em 2004, e posso conversar e refletir com ele quando preciso.'

Para harmonizar com o ambiente social da casa, Cerri criou a estante de madeira maciça em forma de 'U' com três módulos: um fixo e dois móveis, com trilhos em cima e rodízios de silicone embaixo. 'Dessa forma, podemos movimentar os módulos para ampliar a sala de jantar, de um lado, ou o estar, do outro, quando necessário', afirma. Ao dispor os títulos nas prateleiras, divididos em áreas e por autores em ordem alfabética, ele aproveitou para mandar para o restauro os exemplares mais antigos. 'Gosto de mantê-los organizados e acessíveis', diz ele. 'O livro recompõe a profundidade que se perdeu na vida moderna.'

A estante de jequitibá tem três módulos: um fixo, com 2 m de largura, e dois soltos, com 0,80 m de largura. A estrutura é de madeira escurecida e as prateleiras possuem altura regulável,
3,5 cm de espessura e 35 cm de profundidade. Executada pela Toc-Fino Marcenaria, ficou em R$ 3.500


Como a estante tem 3 m de altura, o acesso aos livros nas prateleiras altas se dá pela escada, também de jequitibá, com rodízios de silicone que
não danificam o piso

Por necessidade do ofício e pela paixão, a estilista potiguar Helô Rocha, 28 anos, dona da marca de roupas Têca, coleciona revistas de moda, a maioria estrangeira. 'Guardo apenas as de que mais gosto, separadas em pilhas pelos títulos, geralmente em cima da mesa, porque estou sempre fazendo consultas', diz. Formada pela Faculdade Santa Marcelina, ela tem entre suas publicações preferidas as versões nipônicas da Nylon e da Teen Vogue. 'Sou alucinada pelas revistas japonesas, que mostram a vanguarda da moda. Mas tenho muitas francesas, italianas e norte-americanas.'

Na sala de seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, decorado por sua mãe, a arquiteta Aldanisa Sá, que mora em Natal, RN, a estilista guarda revistas também em prateleiras de vidro, fixadas na parede de madeira. 'Sou meio bagunceira. Espalho-as por todos os cantos da casa', diz. 'Deixo-as do meu jeito e ninguém pode mexer. Ponho post-it e arranco páginas que vão para minhas pastas de referências.' Nas prateleiras altas, ficam romances, guias de viagem e objetos que lembram sua infância.

A estilista Helô Rocha organiza as revistas de moda empilhadas em cima da mesa Saarinen, na qual faz consultas. Poltronas Tulipa, de Pierre Paulin, com
tecido de zebra e couro rosa


Nas prateleiras de vidro, fixadas na parede de madeira, ficam os guias de viagem e os romances, misturados com lembranças de infância

Num cenário vintage, no qual estantes de madeira pintadas de azul pastel dividem o espaço com poltronas antigas de couro desgastado pelo tempo, a psicanalista Anna Veronica Mautner, 73 anos, guarda o que nutre sua mente: livros. Em uma das prateleiras, que forram as quatro paredes da biblioteca de sua casa no Pacaembu, em São Paulo, estão os 40 títulos que fizeram sua cabeça. 'Tem um infantil que veio de navio da Europa, em 1940, antes da Segunda Guerra Mundial. Eu tinha 3 anos quando ganhei', diz Anna, que nasceu na Hungria e se formou em Ciências Sociais, com mestrado em Psicologia Social, pela USP.

Os títulos mais marcantes de sua vida foram comprados na juventude. 'Guardo os livros que me fizeram virar socialista, marxista e depois sionista, como A história da raça humana (1938), de Henry Thomas', afirma a psicanalista, que publicou o livro O cotidiano nas entrelinhas - Crônicas e memórias (Ed. Ágora), em 2001. 'Não coleciono livros. Tudo o que está aqui é símbolo daquilo que li e alimentou minha mente.' Tem espaço especial nas prateleiras Ann Veronica (1909), de H.G. Wells, que seu pai lia quando ela nasceu. 'Ele gostou da protagonista e me batizou com o nome dela.'

A psicanalista guarda seus livros em pé e separados por temas nas prateleiras. Nas de cima, há exemplares de mestres da filosofia. Na de baixo, está a coleção de clássicos, com capa dura e folhas de seda, da Editora Nova Aguilar. 'Tenho porque a acho bonita'

Na biblioteca de Anna Veronica, a estante de madeira com nichos de diferentes alturas e profundidades foi pintada no mesmo azul pastel das paredes. Os objetos e os móveis são de família

Fonte: Revista Casa e Jardim


Um comentário:

♥ Gabii ♥ disse...

Livros são tão magníficos porque são a "presença" de outro alguém conosco, sem o incômodo de ter hora para ir embora. Vida e livros, como livros e vida, por isso mesmo, chegam a se confundir. Robson.