Selo para salvar o clima?

O irlandês Terry Leahy, de 52 anos, presidente da maior rede de supermercados da Inglaterra, a Tesco, afirma não ter grandes idéias dentro de seu escritório. As paredes cor de gelo, segundo ele, não deixam o pensamento fluir com liberdade. "Preciso respirar ar fresco e ter contato com as pessoas", diz. Nos dias mais frios, exercita a mente entre os corredores de alguma loja de sua própria rede e tenta se passar por um cliente comum. Nos dias mais quentes, prefere ir a pé ao trabalho. Ele sai de sua casa, localizada no vilarejo inglês de Cuffley, e anda 2.059 passos (ele afirma ter contado) até o escritório. Em uma dessas caminhadas, em julho de 1998, o executivo teve a idéia de reduzir as emissões de gás carbônico de sua empresa. Queria diminuir a quantidade do poluente que é o maior responsável pelo aquecimento global. Deu início a um minucioso trabalho que envolve centenas de fornecedores.

A idéia é transformar a Tesco em um exemplo de produtividade sem agredir o meio ambiente. Para isso, trocou as máquinas que consumiam muita energia. Substituiu a frota de caminhões a diesel por veículos a gás. Neste ano, Leahy adotou uma tática mais ousada: resolveu colocar no rótulo de seus produtos quanto eles poluem o ambiente. A quantidade de carbono liberada para a atmosfera em sua fabricação estará estampada na embalagem de cada um de seus 70 mil produtos. A notícia valorizou as ações da rede de supermercados em 30% e ajudou a transformar a Tesco em uma das marcas mais sólidas do planeta.

Incluir a emissão de carbono no rótulo dos alimentos ganhou projeção mundial por causa da atual crise de mudanças climáticas. A Terra está esquentando devido ao acúmulo de gases que aprisionam o calor do Sol na atmosfera. O principal deles é o gás carbônico, emitido pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento. Segundo um painel de cientistas da ONU, esse aquecimento pode provocar secas, inundações e aumento do nível do mar. Para o economista britânico Nicholas Stern, a economia global vai encolher 20% até o fim do século.

Contar as moléculas dos poluentes é o primeiro critério transparente em meio a uma profusão de selos ambientais. O consumidor ainda não sabe como privilegiar as empresas que adotam boas práticas ambientais. Afinal, quase todas trazem na embalagem alguma informação de proteção ao meio ambiente. O que é melhor: ser biodegradável ou usar embalagens recicláveis? É difícil avaliar. "Por isso, a informação do carbono no rótulo será uma ferramenta para diferenciar o marketing supostamente oportunista de ações engajadas", diz Ernesto Cavasin, gerente de sustentabilidade da consultoria PriceWaterhouseCoopers. "É provável que, em pouco tempo, o 'quanto polui' passe a ser um critério na escolha dos produtos alimentícios, ao lado do preço e das informações nutricionais." Ele afirma que a informação também alcançará os demais setores da economia, como serviços de entrega de flores e brinquedos. O selo chega primeiro aos alimentos porque a cadeia produtiva é mais curta. É mais fácil calcular quanto emite 1 quilo de arroz que descobrir todas as emissões que envolvem um automóvel.

Como mudamos o clima da Terra
O mecanismo do aquecimento global
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A novidade já está mudando o jeito de consumir dos britânicos. Uma pesquisa encomendada pela União Européia mostra que parte dos londrinos está inconformada com algumas distorções do processo produtivo. O carbono na embalagem revelou que um copo de suco de laranja gasta até dois copos de petróleo para chegar ao supermercado. E que um pacote de salgadinho polui até três vezes mais que 1 quilo de arroz. Será que optar pelos alimentos menos poluentes poderá salvar o mundo das mudanças climáticas?

A empresa londrina Walkers, fabricante da batata inglesa Walkers Crisps, afirma que sim. Em abril do ano passado, ela se tornou a primeira a incluir o custo ambiental na embalagem de seu produto: são 75 gramas de carbono por pacotinho. No processo de auditar suas emissões de carbono, a empresa identificou e reduziu desperdícios. Economizou 33% de energia e 45% de água. Assim, tornou-se ainda mais competitiva. "É uma pena que não existam outras empresas para comparar as emissões com as nossas", diz Neil Campbell, presidente da marca. Há seis anos, a companhia fez uma parceria com a Carbon Trust, criada pelo governo britânico para promover negócios sustentáveis. A meta da Walkers é reduzir a poluição por pacote para 65 gramas até 2010. É mais que a meta de redução recomendada pelos cientistas da ONU.

A declaração do carbono no rótulo ganhou dimensão na Inglaterra. A rede de farmácia britânica Boots colocou a informação em produtos de higiene de marca própria. A nova embalagem começará a circular em julho. A rede de varejo britânica Marks & Spencer preferiu colocar o símbolo de um avião em cerca de 150 alimentos que viajam até chegar aos supermercados. A aviação é o transporte que mais emite gases do efeito estufa. O próximo passo é contar a quantidade de carbono emitida.

Por que o consumidor deveria saber quanto carbono os produtos alimentícios emitem? A decisão de compra nas lojas influencia uma cadeia de indústrias e uma de transportes que, juntas, emitem a maior parte do carbono para a atmosfera. Pelo menos 77% das emissões do mundo são decididas em nosso consumo do dia-a-dia. Esse dado considera as emissões da indústria e da agricultura. Também conta metade da poluição gerada pelos transportes, que levam nossas cargas, e dois terços da geração de eletricidade, que abastece a indústria e os serviços (confira no quadro). "O consumidor pensa que só destrói o planeta quando acende a luz ou anda de carro", diz Hélio Mattar, diretor do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente. "Ele esquece as compras."

A experiência em Londres mostra que a informação na embalagem pode fazer diferença. A idéia dos empresários é levar até o consumidor a decisão de preservar o planeta. "Só o cliente tem condições de favorecer as companhias verdes", diz Osvaldo Martins, diretor da consultoria Iniciativa Verde. "A decisão de compra pode excluir as empresas não-sustentáveis." O consumo consciente pode deflagrar, ainda, um efeito em cadeia. Uma empresa européia de cereais que compre milho no Brasil terá de contar quanto foi emitido aqui na produção do grão. Isso estimula pequenos produtores a reduzir seu desperdício. Estima-se que 75% das emissões em todo o processo produtivo dos alimentos estejam concentradas nos fornecedores menores.

Na União Européia, a informação no rótulo é importante para justificar o preço que as empresas s do continente pagarão ao reduzir suas emissões. No ano passado, o bloco europeu anunciou que vai reduzir, unilateralmente, suas emissões de carbono em até 60% em relação aos níveis de 1990. Para isso, terá de adotar medidas caras, o que colocaria as empresas européias em situação de desvantagem na competição com as de outros países. "O selo do carbono é um modo de explicar por que um produto que poluiu pouco é mais caro que outro", diz Cavasin. Segundo ele, a rotulagem estimularia empresas que fornecem matéria-prima para a Europa a reduzir suas emissões também.

O carbono no rótulo pode ser uma decisão importante. Mas não deve ser a única. O consumidor pode demorar algum tempo para se dar conta de seu novo papel. Enquanto isso, empresas européias podem migrar para países que não imponham metas de redução. Para evitar isso, o Parlamento Europeu prevê um tipo de barreira de mercado. O bloco está discutindo como criar limites para a importação de produtos que emitem mais carbono que o estabelecido no próprio continente. O assunto é polêmico. O chefe do setor comercial do bloco, Peter Mandelson, afirma que uma decisão como essa vai contra as regras internacionais de comércio. O economista Stern diz que é a única solução. Na opinião dele, algo precisa ser feito até que o selo de carbono surta o efeito esperado.

O único jeito, por enquanto, é facilitar a vida das empresas que têm práticas sustentáveis. A Europa deve aumentar a oferta de crédito e anular as tarifas alfandegárias de produtos que respeitem o meio ambiente. Da mesma forma, as mais poluentes serão sobretaxadas. Isso já ocorre na cidade de Quebec, no Canadá, onde as refinarias de petróleo são obrigadas a pagar uma taxa extra por litro de combustível vendido. O dinheiro arrecadado financia projetos que compensam a emissão de carbono, como o plantio de florestas (ao crescer, as árvores absorvem carbono).

Calcular o carbono de um produto está longe de ser uma tarefa fácil. O resultado da conta depende do método adotado. Alguns cálculos consideram as emissões com a construção da fábrica e a locomoção dos funcionários até o trabalho. Outros incluem no processo o que será gasto com refrigeração e iluminação no ponto-de-venda. Há ainda os que descontam do total a poluição evitada com a reciclagem das embalagens. A tendência é que no futuro se adote um padrão de medição global. "Será a única forma de comparar o carbono de produtos da mesma categoria", diz André Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas.

No Brasil, a Natura deverá começar a rotular o carbono em seus produtos até o fim deste ano. "Por enquanto, o rótulo dos produtos contém informações como a certificação de origem e o porcentual de material reciclado", disse Daniel Gonzaga, diretor de pesquisa e desenvolvimento da empresa.

Apesar da adesão pioneira de algumas empresas na Europa e no Brasil, ainda não está claro se a prática vai se popularizar. Uma pesquisa feita pela Universidade do Porto, em Portugal, afirma que os consumidores de lá ignoram qualquer informação nos rótulos dos alimentos. "Aqui deve acontecer o mesmo. Esse tipo de apelo é mais eficiente em sociedades ricas e informadas", diz Martins. Afinal, é preciso consciência para decidir e dinheiro para arcar com o custo extra da redução de carbono. A própria rede de farmácia britânica Boots, que adotou o rótulo em seus xampus, ainda não conseguiu o efeito esperado. Em uma pesquisa com os clientes, descobriu que a principal pergunta após a análise do rótulo é algo como: "E daí?". O empresário Paulo Savino, um dos sócios da Ecobras, indústria fluminense de alimentos s orgânicos à base de soja, diz que não conseguiu aumentar as vendas como esperava após estampar o selo "livre de carbono" em seu produto. A certificação é dada à empresa que compensa suas emissões de carbono.

Algo parecido com a contagem do carbono aconteceu no fim dos anos 80 na Alemanha. A idéia era criar um sistema de rotulagem chamado Ponto Verde. Apenas as empresas com boas práticas ambientais recebiam permissão de estampar isso no rótulo. O efeito foi brutal. As empresas que mantiveram os altos índices de emissões começaram a ser banidas do mercado – pelo consumidor. Mas, por falta de transparência da empresa certificadora, e prováveis acordos com gigantes do setor alimentício, o selo perdeu credibilidade e caiu no esquecimento.

Há motivos, porém, para acreditar que o rótulo de carbono pode pegar no Brasil. Segundo uma pesquisa do Ibope, os brasileiros estão entre os cidadãos do mundo mais sensibilizados com as causas do aquecimento global. Mais de 60% dos entrevistados disseram ter desejo de consumir de maneira responsável. O carbono no rótulo pode ter o mesmo efeito do selo Procel, que indica o consumo de energia dos eletrodomésticos. Hoje, virou um critério na decisão de compra. Além disso, se essa tendência pegar no mundo, o Brasil se beneficiará. O país tem uma produção de energia limpa – 75% vem de hidrelétricas – e parte do transporte é feita com veículos a álcool ou biodiesel. Se a rotulagem de carbono for importante no comércio internacional, nossos produtos estarão em vantagem.

Seu prato aquece o planeta?
A queima de combustíveis fósseis (gasolina e diesel) no transporte de alimentos contribui para o aquecimento global. Esse traslado é responsável por até 70% das emissões de gás carbônico (CO2) dos alimentos. Confira abaixo quanto cada um polui e quantos quilômetros, em média, percorrem até chegar a sua mesa(1)
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Fonte: Época

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