Sempre é tempo de ler

Foto: Usuárias de biblioteca no metrô (SP)

 

Conduzir uma criança ao prazeroso universo da leitura nem sempre é uma tarefa simples. Mas também não é tão difícil assim. Afinal, tempo livre e imaginação solta – características de toda infância saudável – são tremendos facilitadores. Bem mais complicado é transformar em leitor um adulto que chegou a essa fase da vida sem ter descoberto o prazer dos livros. Missão espinhosa? Sem dúvida. Mas não é impossível.

Mais do que a possibilidade de se desligar do mundo real e embarcar no enredo de uma bela obra literária, é necessário dar ao adulto a dimensão de que ler é uma experiência de múltiplas faces: ela pode mudar a vida dele e ajudá-lo em conquistas palpáveis, seja o ingresso numa boa universidade ou um simples bate-papo, mais animado e inteligente, na mesa de um bar. 

Também é preciso facilitar ao máximo o acesso dele ao livro, pois a vida adulta geralmente pressupõe trabalho, falta de tempo, cansaço e pouca disposição para qualquer assunto que não seja "urgente". O segredo é transformar esses supostos impedimentos em motivos para colocar a leitura na pauta do dia-a-dia. Ler pode ser, por exemplo, o jeito mais divertido de encurtar o trajeto entre a casa e o trabalho, ou de enfrentar uma longa fila no banco. E, quanto mais próximos os livros estiverem, melhor. Tanto faz se a biblioteca fica numa casa da vizinhança, no caminho para o serviço ou no próprio ambiente de trabalho.

Para os usuários do metrô em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, a correria do dia-a-dia deixou de ser desculpa. Desde 2004, o projeto Embarque na Leitura, iniciativa do Instituto Brasil Leitor (IBL), instala bibliotecas em algumas estações. "Para transformar em leitor assíduo um adulto que não lê regularmente e vive estressado com o corre-corre de uma cidade grande, o jeito é colocar o livro em seu caminho. As pessoas precisam tropeçar nele. Caso contrário, se distraem e fazem qualquer outra coisa", diz William Nacked, idealizador do projeto e diretor geral do IBL. 

A quantidade de leitores que se associaram na primeira unidade inaugurada em São Paulo, a da estação Paraíso, superou as expectativas mais otimistas. Hoje, as quatro bibliotecas paulistanas do projeto somam 33 mil sócios, que já fizeram 248 mil empréstimos. A recepcionista Maria das Graças Santos, 32 anos, fez sua carteirinha logo depois da inauguração da unidade Paraíso. E, embora a estação não estivesse em seu trajeto rotineiro, ela fazia algumas baldeações a mais só para passar na biblioteca após o trabalho. Com a inauguração da unidade Tatuapé, Maria das Graças já não precisa desviar de seu caminho. E ler ficou ainda mais fácil. 

"Entre o ir e o vir do trabalho, tenho três horas inteiramente dedicadas à leitura. Consigo dar conta de um livro por semana", diz a recepcionista, que agora se diz fã do escritor Machado de Assis. E ela acrescenta que, de uns tempos para cá, vem percebendo que o número de leitores nos trens do metrô paulistano tem aumentado. 

Embora 64% dos usuários dessas bibliotecas sejam mulheres, os coordenadores do projeto registraram em 2007 um aumento de 38% no número de associados do sexo masculino. O motivo? Uma isca bem jogada. Aproveitando-se da realização dos Jogos Panamericanos na cidade do Rio de Janeiro, as vitrines foram preenchidas com títulos sobre esporte. Resultado: atraídos pelo tema, os homens deixaram-se fisgar pelo prazer da leitura. 

William Nacked calcula que os sócios lêem, em média, dois livros por mês. "Há três mitos que esse projeto derrubou: o de que o brasileiro não gosta de ler, o de que ele não devolve o livro que pega emprestado e o de que ele só escolhe porcaria". O Embarque na Leitura mantém bibliotecas nas estações Paraíso, Tatuapé, Luz e Largo Treze, em São Paulo; na Central, do Rio de Janeiro; e na estação Recife, da capital pernambucana.

Nas cidades-satélite de Brasília, o projeto de incentivo à leitura Mala do Livro já atendeu, em 18 anos, mais de 1 milhão de pessoas. A idéia, de uma simplicidade admirável, foi da bibliotecária Neusa Dourado: levar pequenas coleções de livros em cestas de palha para comunidades que ficam longe demais de uma biblioteca pública. Deu tão certo que, em 1995, o programa foi incorporado pela Secretaria Estadual de Educação. Os frágeis cestos, então, foram substituídos por caixas-estantes de madeira, com espaço para 180 livros cada uma. Hoje, elas estão distribuídas por 502 residências no entorno de Brasília. Há outras também em centros comunitários, abrigos, museus e até hospitais. E é a vizinhança que dita o "perfil" dos livros de cada mala. Maria José Lira Vieira, professora de Psicologia e coordenadora do projeto, diz que cada localidade tem uma demanda específica. Algumas preferem literatura de cordel. Outras, livros de receitas e até sobre cuidados médicos. 

Helena Conceição Silva tem 82 anos e há mais de quatro abriga uma mala em casa, na região administrativa de Samambaia. Além de receber visitas (que entram e saem o dia todo, levando e trazendo livros), dar orientações e anotar os pedidos, ela também encontra tempo para ler. "Com a mala aqui em casa eu sempre vejo as novidades primeiro. Dá para ler até uns dez livros por mês". O acervo também se faz presente em hospitais, como o Santa Lúcia, em Brasília. A idéia é dar aos trabalhadores do local a chance de aproveitar momentos de folga – o intervalo do almoço, por exemplo – para desenvolver o hábito da leitura. Uma das maiores fãs da minibiblioteca é a escriturária Guaciane Nunes de Oliveira, 25 anos. De tanto fazer retiradas semanais, ela incentivou algumas amigas, que hoje vão sozinhas escolher seus próprios livros.

Em Imigrante, uma cidadezinha com pouco mais de 3 mil habitantes a 136 quilômetros de Porto Alegre, são os vereadores-mirins do projeto Amigos da Leitura que incentivam o prazer pelos livros entre adultos. Eles são alunos de 7a e 8a séries do Ensino Fundamental eleitos pelos próprios colegas de escola. Todo mês, visitam as indústrias da região levando uma seleção de livros da biblioteca pública da cidade. No ambiente de trabalho, em horário determinado pela direção da empresa visitada, organizam a exposição dos volumes e cuidam do cadastro de retirada e devolução.
 
Segundo Edí Fassini, secretária municipal de Educação, os pequenos vereadores indicam obras aos trabalhadores e fazem leituras de poesias e pequenos contos em voz alta para metalúrgicos, costureiras e operários dos setores químico, alimentício e calçadista. Para Ana Paula Machado de Souza, 33 anos, funcionária de uma confecção, a iniciativa deu-lhe a oportunidade de fazer suas próprias escolhas. Até então, ela pedia à filha adolescente que pegasse alguns títulos na biblioteca da escola. 

"Olhar o livro e escolher por conta própria faz toda a diferença", diz Ana Paula, que, a cada visita dos vereadores-mirins, garante cerca de três obras para ler durante o mês. E não é somente ela quem gosta das visitas. Ana Paula diz que a experiência surtiu efeito em todos os colegas da confecção. "Quem não lia passou a ler, e o ambiente de trabalho até ficou mais gostoso. Agora, a gente tem mais assunto na hora do cafezinho".

Fonte: Revista Escola

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