Sobre a avareza

 

Culpo pelo meu consumismo, exagerado e quase desenfreado, a avareza

Não a minha, que nunca a tive, graças a Deus.

Mas a do meu pai, que a tem cada vez mais forte, desde sempre

Via minha mãe lavando roupa na mão, pegando roupas pra fazer, economizando moedas

E pra quê? Pra nos dar a grande alegria de ter uma boneca nova no Natal

Um prendedor de cabelo mais colorido pra festa da escola

E receber amigos com bolo e refrigerante no aniversário.

Se abstendo de delícias que queria comer e de passeios que tanto desejava

Comprando roupas apenas uma vez no ano, consertando as do ano anterior

Gastando a sola de um único sapato pra todo lugar até não ter mais jeito

Cuidando do cabelo só com sabonete e tendo creme de hidratação só em Dia das Mães

E por quê? Porque meu pai não podia gastar nada além do extremamente básico pra sobrevivência

Enquanto ele, o senhor pão-duro, só juntava

Guardando sonhos na gaveta e desejos no porão

Quase enterrando esperanças com muitos torrões de areia e pedras de subestimação

Cresci revoltada com essa contradição

Pensar só no amanhã e viver hoje de migalhas

Comecei a trabalhar muito nova pra poder comprar o que queria

E não poucas vezes me flagrei comprando até o que não precisava

Apenas por estar com vontade de comprar, apenas por ter sido tão oprimida por tantos nãos

Meu pai continua vivendo de juntar para o futuro

Minha mãe conseguiu se tornar quase completamente independente

Mais madura, meus deslizes já são menores, mas prefiro ser consumista a ser avarenta

Não atentar pras coisas que o dinheiro pode comprar e facilitar a nossa vida é burrice

Já aprendi a guardar um pouco, mas não deixo de viver o hoje, o agora, nossas vontades

Vivo o hoje, sim, e com muita vida.

Caixão não tem gaveta e depois do cemitério não vou precisar de nenhum vintém

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